Sou feliz?
Me pergunto, enquanto observo, discretamente, minhas próprias rugas novas – como quem observa uma desconhecida num trem.
Não os tenho, ainda. Mas cada vez mais frequente uma idéia sólida, como uma rocha inevitável no meio de um salão, me assalta:
estou mais perto dos enta que dos inta.
Considerando a expectativa média de vida, estou na média.
Considerando a expectativa média de quanto tenho para viver com agilidade de hoje, quanto?
Melhor não.
Ás vezes ouso duvidar: “não… posso até ter, mas não aparento.”.
Então, me olho de novo e constato:
“Sim, praticamente uma semi-senhora.”. – aquela idade média que as crianças já enxergam com uma certa sobriedade e desconfiança.
Sim.
Tenho rugas. O narizinho “rebitado” que tão frequentemente era apelido carinhoso, agora se esconde num rosto neutro.
E se solta, se projetando pra baixo, no primeiro pulo de expressão mais livre.
Nessas horas, uma bolota na ponta fica tão nítida, que tenho a impressão de que poderia cair, como uma bolinha, dessas de gude e de ferro, muito muito antigas, iguais as que o papai uma vez me deu.
Falando nele, preciso concordar que não foi de repente: eu lembro, sim, quando surgiram os primeiros sinais de que eu não seria jovem pra sempre.
Brotaram primeiro na altura do busto, bem onde lembro de ter visto as dele. Pequenas bolinhas vermelhas. Feito sinais, mas vermelhas. Na ocasião, sorri entusiasmada.
Estranho. Ter sorrido na época. Não querer ter sorrido agora.
E por causa disso, sorrido. E percebido outra coisa.
Agora, quando sorrio, já vejo os tracinhos no fim dos olhos, como reticências prolongadas, com pelezinhas amontadas como se uma vó tivesse aprumando-as em pregas tal como faria com uma saia a ser ajustada.
Embaixo, por outro lado, penso em uma bainha mal-feita de uma calça muito mais larga do que o ideal.
As covinhas, sutis e tão desejadas, agora se espalham ao redor da minha boca.
(não podemos chamar de covinhas essas pequenas sombras perto do queixo, não é?)
É, sim. Tenho toda a aparência de uma semi-senhora.
Daquelas que os moleques na rua se referem como “tia” com um certo deboche. Estou meio acabada mesmo. Concordo, enquanto abro e fecho a boca, para avaliar sem pressa e sem peso.
Então percebo.
Não sei direito o que concluir mas antes de enxaguar o rosto, estou rindo com um ar infantil e debochado.
É claro que estou “acabada”.
Não passei hidratante.
Torci o nariz para cada oportunidade de passar protetor solar nas mãos e no rosto antes dos 30. Caminhei por horas entre 10 e 15h no sol.
Tomei sorvetes, bebi caipirinhas. Provei pizza margherita em cada lugar que tive oportunidade.
Dancei até de madrugada muitas vezes e vi alguns nascer-do-sol com os sapatos na mão.
Fingi demência, cruzei olhares, viajei de diferentes formas (embora ainda não todas e definitivamente para não todos os lugares que ainda pretendo).
Chorei de amores.
Sorri de amores. Sofri.
Beijei.
Aprendi receitas novas nas quais viciei.
Tomei cervejas e cafés e carnes e chocolates e vinhos e queijos e pães por onde passei.
Almocei no carro. Dormi no carro.
Vomitei no carro. Me apaixonei no carro.
No carro morri de frio, no carro morri de rir.
Morri de rir na calçada.
Na calçada e nas muretas também já comi alguns pastéis, tive conversas maravilhosas e contemplei a vida em solitude.
Mudei minha vida.
Me tornei tia.
Perdi meu pai.
Mudei minha vida.
Sem querer, encontrei minha alma gêmea.
Mudei minha vida.
Achei que perderia minha mãe. Mudei minha vida.
Por querer, querer demais, Deus me permiu ser mãe.
Mudei minha vida.
Vi minha mãe se tornar vó pela segunda e, agora, caminhando para a terceira vez. Fugi pra praia quando precisei.
Fugi, sempre que precisei. Fiquei.
Finquei o pé quando quis ficar e me mantive firme onde e como desejei, enquanto pude.
Peço água fora do gelo e um copo com limão e gelo sem constrangimento.
Como o que precisar. Preparo o que eu quiser.
Descubro e aprendo sempre que decido.
Demoro, ás vezes muito, mas sempre decido – reconhecendo a incerteza, mas também sem volta.
Até aqui, nos meus próprios termos, mais do que muita gente pode dizer, escolhi os sacrifícios e os riscos e me entreguei a eles como quem coloca flores num altar.
Cedi sim, cedi muitas vezes. Algumas me arrependo, outras nem um pouco.
Gritei. Bati algumas portas. Quebrei alguns cristais.
Me envergonhei de mim muitas vezes.
Aceitei, me culpei e abaixei a cabeça sem limites outras tantas.
Mas pouquíssimas vezes menti.
Pouquíssimas vezes aceitei tentar caber. E quando fiz, fiz conscientemente.
De forma geral, sento na grama. Podo nossa horta. Tenho e uso “roupa de ficar em casa”.
Esqueço a hora. Uso tênis e roupa larga sem medo.
Pego sol na frente de casa (quase sempre sem protetor, fazer o quê).
Ando de bicicleta. Brinco de correr com minha filha no carrinho do supermercado. Me distraio com parafusadeiras, lixadeira, tico-tico e um violão – mesmo sem maestria em nenhum deles.
Mudo de ideia, agora sem culpa.
Digo “não sei”, agora sem medo.
Danço estranho. Sento na areia.
Esqueço de marcar as unhas. A massagem. O salão.
Como no carro, ás vezes em pé, ás vezes no chão.
Cozinho e penso muitas coisas.
Tenho medo. Tenho sonhos. Tenho listas não cumpridas. Tenho ideias.
Tenho a mim. E minhas rugas. E minhas loucuras. As tenho, sim.
Porque eu vivi.
Porque eu vivo.
Sempre gostei de viver, afinal de contas. Sem casca, sem cobertura, sem metades.
Sempre tive fome de vida e gostei de degustá-la como quem devora, se suja e se alegra em um pedaço de melancia grande demais no meio do verão.
E sigo na certeza de que Deus não falha: a vida muda a gente até a gente estar pronta pra mudar de novo – mesmo que a gente tenha dúvidas.
Será que, um dia, vou querer remover essas marcas? Suavizar essas sombras, transformar a saia de pregas dos meus olhos na mesma saia lápis que, faz tempo, inclusive, não uso?
Será que, um dia, no lugar de treinar, vou para uma maca de cirurgia, no lugar de terapia vou me resolver com remédios. No lugar de me abster à mesa vou tornar a me fartar?
Será que um dia vou me arrepender?
Será que um dia vou me olhar e não me reconhecer?
Será que um dia vou esquecer quem sou e tudo que fiz e conquistei vai perder o valor?
Será que conseguirei me manter quem sou, enquanto me adapto a quem meu corpo me limita a aceitar ser? Será que um dia vou me contentar em me conformar?
Será que vou perder o apetite quase libidinoso do existir?
Talvez.
Mas até lá, viverei.
Porque ninguém morre de dúvida. A gente morre é nas certezas.



